De Espaços Abandonados, de Luisa Geisler

Luisa Geisler é uma autora brasileira contemporânea que já possui uma obra literária forte e já consolidada. Seus dois primeiros livros Contos de Mentirinhas (Record, 2011) e Quiçá (Record, 2012) foram vencedores do Prêmio Sesc de Literatura, respectivamente, nas categorias contos e romance . Já seu romance Luzes de emergência se acenderão automaticamente (Alfaguara, 2014) foi escrito de forma epistolar com uma linguagem jovem e coloquial que lhe valeu grande destaque entre os novos escritores.


De Espaços Abandonados (Alfaguara, 2018), seu novo romance, parece condensar as técnicas narrativas já trabalhadas anteriormente pela autora mescladas às novas formas. O resultado disso é um livro permeado de inúmeras vozes narrativas que intrigam e ao mesmo tempo instiga o leitor a desvendar os mistérios que a história, não só de Alice, vai entregando aos poucos sem subestimar quem tem o livro em mãos.

Dessa forma o livro se divide em três parte e mistura cartas, folhas de cadernos, fotografias, arquivos digitais de texto, e-mails e o grande destaque: um manual de escrita criativa com dicas e exercícios que prometem a produção do seu próprio romance em um ano. Esse manual explica, entrega fichas de construção de personagens e traz 366 perguntas para o escritor responder ao logo do processo. Tudo isso está entrecruzado com a história em curso de De Espaços Abandonados.


- Não, brigada. Eu não posso sair hoje, eu tenho muita negatividade que preciso internalizar. p. 300
Mas afinal qual seria o enredo? Bem, como plot o livro traz a personagem Maria Alice, uma jovem tímida que posse baixa visão (miopia) e sai pelo mundo em busca da mãe Lídia. Acontece que sua mãe sofre de distúrbio bipolar e sumiu sem deixar informações sobre seu destino, sendo dada como morta. Nessa busca, Maria Alice é levada a Dublin, na Irlanda, por indicações de um blog de fotografias contendo espaços abandonados, blog esse que a moça acredita pertencer a mãe desaparecida.

Eu e Lídia éramos como um quebra-cabeça. Não no sentido de nos complementarmos, mas como se fossemos duas peãs de cantos distintos. Um olho distraído acharia que deveria encaixar. Mas, por mais parecidas que fôssemos, eu não preenchia as entradas dela, e vice-versa. p. 351
Na ida à Irlanda, Maria Alice entra em contato com um vasto número de jovens brasileiros (além de outras nacionalidades) tentando a sorte de melhor qualidade de vida nesse novo país, mas que, de alguma maneira, perderam o rumo e não sabem  bem qual o proposito de suas estadias nesse lugar. São jovens depressivos, entediados, preocupados, aflitos que lidam com festas, trafico e uso de drogas, ao mesmo tempo que compartilham do mesmo ambiente e da  sina de ser brasileiro no curso de adaptação (ou não) em um lugar estranho. Uma dessas personagem é a Bruna que, ao contrário de Maria Alice, é extrovertida e trabalha exportando materiais para o Brasil, onde deixou uma filha aos cuidados de seus pais.

A forma que a autora escolheu para contar essa história é fragmentada. Através dos exercícios propostos pelo curso de escrita ela vai respondendo as perguntas por meio dos personagens que vão narrando o que está acontecendo. Nem sempre o que o curso pergunta será respondido pelos personagens. Porém, nessa forma, é tarefa do leitor se situar para identificar a que voz pertence aquela narrativa em curso. É provável que o leitor se perca um pouco, talvez até seja o intuito, como se essas histórias fossem um novelo de lã, o qual Taco Cat, gatinho adotado por Bruna, brinca e enrola tudo.

É perceptível um vasto conhecimento de mundo e da cultura pop neste romance. Luisa Geisler consegue introduzir piadas sarcásticas, diálogos e pensamentos influenciados por memes da internet, além de uma ironia que brinca com o tragicômico. Exemplo: "Ela começou a cantar uma música sobre ter dois reais e gastar na Subway." p. 273
Me beijasse até que eu esquecesse o quão aterrorizada eu estava de tudo de errado com minha vida. A gente se beijou. Eu me lembrei. Quis morrer de levinho. p.
De Espaços Abandonados é um livro de literatura brasileira que se passa em outro país e quebra aqueles paradigmas de que o autor só deve escrever sobre o lugar em que vive, os assuntos de seu país, embora aqui a autora se atenha a personagens brasileiros e também tenha vivido uma temporada no lugar em que a história se passa. O resultado é um olhar de um nosso sobre nossos conterrâneos em terras estrangeiras, revelando que nem sempre a buscar leva ao lugar que se almeja e que nesse processo sofremos mutações que até mesmo mudam os objetivos primários. No caso de Maria Alice, essa busca talvez seja algo maior do que apenas a Mãe dela, como a de si mesma em uma forma de se desvencilhar de suas origens, tanto é que no início do romance é o Caio, irmão de Alice, que procura pelo paradeiro da irmã.


Luisa Geisler é uma escritora para se ler e acompanhar o que ela anda publicando. No entanto, acredito que De Espaços Abandonados não seja o melhor livro para começar essa jornada, seu experimentalismo pode não agradar a todos os leitores, mas certamente isso não tira a qualidade de ser um excelente livro e bem escrito.


Ficha técnica:

   Título:  De Espaços Abandonados
   Autor: Luisa Geisler 
   Editora: Alfaguara 
   Edição: 1 
   ISBN: 9788556520685
   Gênero: Romance brasileiro 
   Ano: 2018 
   Página: 416
   Resenha de número: 417

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