'Assombração na Casa da Colina', de Shirley Jackson

Já falamos aqui o quanto adoramos "Sempre Vivemos no Castelo", romance da autora norte-americana Shirley Jackson. Hoje trazemos para vocês nossas impressões sobre o clássico e o que seria considerado a obra prima da autora que é tanto aclamada pela crítica quanto influência para autores como Neil Gaiman e Stephen King.


"Assombração na Casa da Colina" foi publicado pela primeira vez em 1959, ou seja, 59 anos atrás. Aqui no Brasil ele recebeu uma edição na década de 1980 pela extinta Francisco Alves, casa editorial famosa pela coleção Mestres do Horror e da Fantasia, contendo grandes nomes do gênero e agora o livro tido como uma das melhores histórias de terror do século XX ganha edição de luxo pela editora Suma, do grupo Companhia das Letras.

"Eleanor Vance tinha trinta e dois anos quando foi à Casa da Colina", ela não consegua se lembrar de nenhum momento de felicidade em sua vida adulta, ainda mais, a única pessoa que odiava, após a morte da mãe, era sua irmã. Seu nome apareceu na lista de convidados do Sr. Montague, um médico que deseja realizar um experimento na Casa da Colina. Além de Eleanor, o mesmo convite é feito a mais dois hospedes: Theodora, uma artista que já teve experiencias sensitivas e Luke, o herdeiro da mansão, ambos convidados, não atoa, para passar uma temporada de veraneio no local tido como assombrado por fantasmas pela população de um pequeno município abandonado próximo as colinas onde a casa se encontra.


Ao longo da trama, o médico vai registrando os acontecimento estranhos do lugar para comprovar o que há ali que deu má fama a casa. Porém, a convivência naquele ambiente vai resgatando memórias esquecidas dos hóspedes convidados fazendo com que sanidade e realidade percam o sentido em meio as formas geométricas da casa, as portas e janelas trancadas, ao escuro e isolamento do lugar e ao barulho sem causa aparente. O que entra em jogo passa a ser o medo do que a casa possa fazer com seus convidados e o quão a psique humana é afetada por isso. Mas afinal, o que faz ressaltar esses sentimentos de inquietação nos hóspedes da mansão? É uma pergunta que permeia as entranhas do livro.

Dividido em nove capítulos com pequenas subdivisões Shirley Jackson traz uma escrita concisa e uma técnica magistral para prender o leitor de forma sofisticada em um clima de mistério. Ela vai criando expectativas até a última pagina do romance sem perder o jeito de criar imagens estranhas, densas e de visualização clara. O mais interessante de "Assombração na Casa da Colina" é que a autora não se utiliza de artifícios grotescos, sanguinolentos e nojentos em sua história, ao contrário, as sutilezas em situações bem comuns trazem, ao livro, o suspense e a tensão necessária para impressionar quem está lendo.


Os personagens são advindos dos anos 1950, sendo assim, respeitando as crenças e estilo de vida daquele período. Certamente as mulheres dessa época sofreram as consequências do conservadorismo e machismo cruel como vocês podem ler nesse texto. E as personagens desse romance, principalmente Eleanor, sucumbem o que se espera delas enquanto mulheres, mesmo Eleanor ainda se enquadrando, de certa maneira, nesses requisitos. No entanto, ela própria declara seu desprendimento com o mundo, com a família e tendo a quantidade de pertences que cabem na mala de seu carro. Mostra também a solidão que a faz, em constantes situações, delirar na presença da Casa da Colina.


As frases evocadas pela autora são bem construídas e dignas de admiração. Tanto em "Sempre Vivemos no Castelo", quanto nesse romance, ela inicia as suas histórias com belos parágrafos, como é possível enxergar:

"Nenhum organismo vivo pode existir por muito tempo com sanidade sob condições de realidade absoluta; até cotovias e gafanhotos, supõem alguns, sonham. A Casa da Colina, desprovida de sanidade, se erguia solitária contra os montes, aprisionando as trevas em seu interior; estava desse jeito havia oitenta anos e talvez continuasse por mais oitenta. Lá dentro, paredes continuaram de pé, tijolos se juntavam com perfeição, assoalhos estavam firmes e portas estavam sensatamente fechadas, o silêncio se escorava com equilíbrio na madeira e nas pedras da Casa da Colina, e o que entrasse ali, entrava sozinho. "
  
"Assombração na Casa da Colina" termina exatamente da mesmo forma como a narrativa começou, uma possível representação de que, independente dos fatos ocorridos ali durante a estadia dessas pessoas, a casa, mesmo após oitenta anos de construção, continua ali intacta, isolada em seu silêncio a espera de novos visitantes "e o que entrasse ali, entrava sozinho", com a mansão exercendo forças sobre as suas inquietações .

Trata-se, por fim, de um livro que talvez não assuste aos leitores da forma que se espera, afinal é um romance psicológico e deixa em muitos momentos questões dúbias para quem está lendo se comprometer a resolver, por outro lado, seu conjunto de elementos que compõem a atmosfera aliados a estranheza e aos personagens não confiáveis nos proporciona uma experiência assombrosa que vale a pena conferir.


Esse é um livro que já foi adaptado para o cinema duas vezes. A primeira em 1963, sob direção de Robert Wise e a segunda em 1999, de Jan de Bont. Recentemente a Netflix lançou "A maldição da residência Hill", uma série criada por Mike Flanagan e inspirada no romance de Shirley Jackson, mas não se trata de uma adaptação fiel.

E você, já leu Shirley Jackson? Já assistiu aos filmes e a série? Conta aí nos comentários. Vamos conversar!


Resenhado por
Pedro Silva

Ficha técnica:


Título: Assombração na Casa da Colina,
Autor: Shirley Jackson 
Título originalThe Haunting οf Hill House (1959) 
Tradução: Débora Landsberg
Editora: Suma de Letras 
Edição: 1 
ISBN: 8556510639
Gênero: Romance 
Ano: 2018
Páginas: 240
Resenha de número:416

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