Vento Vazio, de Marcela Dantés

Vento Vazio é o segundo romance de Marcela Dante, publicado em 2024 pela Companhia das Letras. Seu livro de estreia foi finalista dos prêmios São Paulo e Jabuti em 2021, consolidando a autora como uma voz promissora da literatura brasileira contemporânea. Em Vento Vazio, somos levados ao vilarejo fictício de Quina da Capivara, onde a instalação de uma usina eólica transforma de forma silenciosa, porém profunda, o cotidiano e a saúde mental dos moradores. A obra investiga com sensibilidade os impactos dessa mudança em uma comunidade marcada pelo isolamento e pela luta por pertencimento.

A narrativa é construída a partir de múltiplas vozes, quatro para ser mais exato, em especial: Miguel, Cícera, Alma e Maura. Cada personagem ganha uma estrutura textual própria, com uma linguagem que reflete suas experiências, emoções e formas de ver o mundo. Mesmo quando a autora não revela de imediato quem está narrando, a singularidade das vozes torna possível identificar cada um com clareza. Isso confere ao livro uma riqueza estilística notável, além de um ritmo fluido e envolvente. Com apenas 200 páginas, é uma leitura breve, mas potente.

Apesar de a trama não abordar diretamente os debates técnicos sobre a energia eólica, a autora sugere, de forma sutil, mas crítica, as consequências sociais e ambientais da instalação dessas usinas em regiões rurais. A narrativa ganha ainda mais força quando confrontada com a realidade brasileira: em diversos estados do Nordeste, como a Paraíba, o Ceará e Pernambuco, agricultores relatam impactos negativos da presença de torres eólicas próximas às moradias, desde ruídos constantes até alterações no comportamento de animais, na fauna e até na saúde mental dos moradores, afetados por ansiedade e depressão. Em contraste com regulamentações mais rígidas na Europa (onde há um limite de até dois quilômetros entre as torres e áreas residenciais), no Brasil essa distância pode ser de apenas 400 metros, o que levanta uma série de preocupações.

No livro, essa tensão é representada nas trajetórias dos personagens, todos marcados por traumas, segredos e um cotidiano cada vez mais instável. São figuras marcadas por dores profundas e silêncios densos, cujas vozes se entrelaçam para compor o retrato fragmentado de uma comunidade em colapso. Miguel é um homem misterioso, que chega ao vilarejo após fugir de um incêndio, carregando um passado que ninguém conhece ao certo. Cícera, por sua vez, cava buracos em busca de dinheiro, movida por uma obsessão quase delirante, revelando uma relação intensa com a terra. Alma é uma jovem introspectiva, com dificuldades de comunicação e comportamento retraído, que sugere algum tipo de transtorno mental não nomeado, mas sensivelmente construído pela autora. Já Maura traz em sua narrativa um olhar mais maduro e amargo, testemunhando os efeitos da usina sobre a vida da aldeia e seus habitantes. Cada um deles é afetado, direta ou indiretamente, pela presença silenciosa e perturbadora das torres eólicas que, mais do que estruturas físicas, tornam-se símbolos de ruptura, abandono e desgaste psicológico.

Ao final, Vento Vazio revela-se um romance original e corajoso, que mescla crítica social, lirismo e experimentação narrativa. A autora oferece um retrato perturbador de uma terra onde “ninguém está imune ao vento vazio, penetrante e enlouquecedor”. Uma leitura indispensável para quem se interessa por literatura contemporânea brasileira e pelas questões sociais e ambientais que atravessam nosso tempo.

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Ficha técnica: 

Título: Vento Vazio | Autor: Marcela Dantés  Editora: Companha das Letras | Edição: 1 | Ano: 2024 | Gênero: Romance brasileiro | Páginas: 224 | ISBN978-85-3593-775-6
Resenha de número: 455

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