Sobre o tempo frouxo: Nossas noites, de Kent Haruf


Imagine-se como um viúvo, que perdeu a esposa um ano atrás, recebendo a visita de sua vizinha (também viúva e amiga de sua mulher) lhe fazendo a proposta de passar a dormir com ela, não com intuitos sexuais, mas de companhia, afinal, após a partida de seu esposo ela passou a se sentir só e acredita que você compartilha do mesmo sentimento. Qual seria a sua (re)ação?

É exatamente essa a proposta que Addie Moore faz a Louis Waters no livro Nossas Noites, último romance do escritor Kent Haruf. 

O único filho vivo de Addie mora longe, assim como a filha de Louis. Ambos vivem em casas desertas. Então, porque não tornar as noites mais toleráveis? Ainda mais sabendo que “as noites são a pior parte.” Dessa forma, esses septuagenários passam a dividir a mesma cama todas as noites, sem medo dos julgamentos da vizinhança da pequena cidade de Holt, no Colorado, ou do que possa vir em seguida. A escuridão do quarto é preenchida por diálogos sobre o passado dos dois (arrependimentos, tristezas, alegrias, desejos), aliviando assim, com o carinho de mãos entrelaçadas, a terrível sensação de solidão que ali habitava. 

As noites se transformam em dias de verão, em passeios na floresta, em idas ao teatro, compras no mercado e o aproveitamento da simplicidade do correr dos dias. Mas nem toda felicidade do mundo é vista com bons olhos pelo tribunal dos ditos "da moral e dos bons costumes", grande ameaça destrutiva para esse laço criado.
Você não tem medo da morte?
Não como antes. De uns tempos para cá passei a acreditar numa espécie de vida após a morte. Numa volta ao nosso verdadeiro eu, um eu espiritual. Nós só estamos nesse coro físico ate voltarmos a ser espírito.
Eu não acredito nisso, disse Addie. Talvez você esteja certo. Eu espero que esteja.
A história de Nossas Noites se passa em poucas páginas, mas não deixa de trazer assuntos profundos e que deveriam ser de interesse universal como a solidão na terceira idade e o desejo humano por afeto.

O autor escreve de forma simples e isso não é nada negativo, ao contrário, sua escrita é sublime e, casada ao enredo bonito e agridoce, deixa tudo mais emocionante. Haruf, ao longo do romance, consegue nos introduzir na vida dos personagens e em suas angustias, trazer as dores do passado e suas afetações, seja de um filho necessitando da presença afetiva do pai ou de um casal que viveu, em determinado momento de seu casamento, juntos porém em camas separadas. Seus personagens assim vão ganhando camadas.

No fim, a história que nos é entregue de forma despretensiosa e graciosa se mostra profunda. É aqui que o autor nos mostra como é chegar perto da morte, saber que seu tempo está acabando e se assustar com isso, mas mesmo assim ser corajosa como a Addie e tomar alguma atitude. Por outro lado, também se mostra um livro muito duro, sobretudo ao abordar esse período como um momento de apego emocional, de aproveitamento máximo porque se sabe qual é o destino. Mas, talvez o mais dolorido seja chegar nessa fase e sentir que você está só e ir ao extremo de ter que buscar por companhia. É saber que, por mais que queiramos uma independência, nós humanos somos seres coletivos e necessitamos uns dos outros, necessitamos e nos sentimos melhores tendo alguém para, de mãos dadas ou não, conversar ao nosso lado. Você não?

xxx


Nossas NoitesTítulo: Nossas Noites
Original: Our Sous at Night
Autor: Kent Haruf 
Editora: Companhia das Letras
Tradução: Sonia Moreira
Edição: 1 
Ano: 2017 
ISBN: 9788535928662
Gênero: Romance norte-americano
Páginas: 160
Resenha de número: 429


Resenhado por: Pedro Silva

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