As Coisas | Tobias Carvalho

O autor gaúcho Tobias Carvalho foi o grande vencedor, na categoria contos, do Prêmio SESC de Literatura em 2018, um dos mais importantes do pais e responsável por colocar no mercado editorial novos autores brasileiros. Sua obra inédita, 'As coisas', então selecionada por um júri composto pelos escritores Letícia Wierzchowski e Daniel Galera, ganhou edição e publicação pela Editora Record no final do ano passado.


'As coisas' reúne uma coleção de 23 histórias em quase 150 páginas, o que índica o tamanho dos enredos curtos onde dilemas de homossexuais são desenvolvidos. São histórias sobre encontros casuais com fins sexuais (ou não), um olhar maduro sobre momentos de descobertas no passado, relacionamento a dois e o questionamento da monogamia, o medo de morrer por demonstrar ser quem é, a tristeza advinda de um grande trauma, a velha incerteza sobre as nossas escolhas feitas para a vida e o vazio de relações  em detrimento de outras com desejo de algo sério e duradouro.

"Talvez o Gustavo tivesse razão. O sexo fácil demais era apenas um tipo mais sofisticado de masturbação. Era um sexo comigo mesmo o que eu buscava. Não importava quem estivesse ali. (The Biggest Lie. p. 135)


Contos, como O breu, trazem os assuntos abordados sob uma perspectiva externa aos indivíduos gays, embora eles estejam ali presentes de forma indireta nos contos — é o exemplo de um pênis no meio da sala que gera o conflito e o desconforto de um pai de família tentando assimilar a origem daquele objeto completamente estranho ao ambiente —, em nenhum momento a figura física do homossexual surgir no enredo, mas só a ideia de haver um veado ali é abominável. Da mesma forma que, em outro conto, durante uma sessão terapêutica, uma mãe relata as suas dificuldades em aceitar que o filho, tão bem criado, seja gay, afinal, para ela, a questão central: "[...] é foda sabe. Saber que o filhinho que tu amamentou. viu nascer, olhou nos olhinhos quando era recém-nascido, meu cabeçudinho querido que amava a mãe e me chamava quando eu deixava ele na creche, chorava até a hora de eu voltar, saber que ele dá o cu." (Jung, p.104).

Tobias tem autenticidade porque fala de dentro para fora e de uma posição sobre a qual demonstra ter conhecimento, o que dá e transmite firmeza e causa empatia em suas histórias. Ele captura um recorte de uma geração que vive o/no presente. Não se tratam de homossexuais do passado, com outros dilemas, e embora esses descritos sejam os mesmo que ainda virão no futuro (o que é difícil dizer), o autor, como já dito, consegue abordar temas universais e atemporais (amor, raiva, tristeza, morte e vida) e traz os temas universais dentro da comunidade. É a enchente causada pela água e a destruição advinda do fogo. Em suma, um de seus contos traz uma síntese do que o próprio autor se propõe na obra:
— Falta isso, né? Histórias pra falar dessas relações que existem. Tem uma caralhada de filmes com os dois cara se descobrindo, isso já vimos. Mas e depois? As relações das bichas são diferentes. A gente já não se encaixa nas regras, não precisa se encaixar em padrão nenhum.
— Como assim?
— Monogamia, por exemplo. Tem muito gay que não quer mais se limitar a uma pessoa só. A gente não tem amarras que nos impeçam de transar Quer transar pra caralho. Olha as coisas que a gente faz para gozar, só a quantidade de tempo que o pessoal passa nos aplicativos só pra gozar rápido. E não tem ninguém falando disso. Só tão mostrando as historinhas em que o pessoal casa e vive feliz pra sempre. (Um não esquece o outro. p. 90)

'As coisas' é uma literatura com contos muito bem produzidos, de todos, não é possível dizer que tenha algum ruim, ou que tenha personagens desinteressantes. Alguns são curtos, outros maiores, mas sempre com uma linguagem limpa e fluida, sem engasgos. Notamos algumas tentativas do autor em trazer formas diferentes de construção textual, seja com contos que se segue em paragrafo único com apenas um ponto final (Cantiga de Roda), e também um mesmo caso de parágrafo único, mas esse sem ponto final (Sauna 3). É uma ideia que vai perpassar em todas as histórias: a de que a vida continua. Essas histórias são acontecimentos da atualidade e logo mais outras coisas hão vir. Isso é o agora, o amanhã será transformado, e aí, quem será o próximo autor a narrar isso? Fica em aberto, mas também a certeza de que, com sensibilidade, Tobias Carvalho transmitiu sua mensagem com corpos como outros que sangram e que choram, que amam e sorriem, corpos que vivem dilemas específicos e universais, talvez ao mesmo tempo, e que estão aí no corre como todo e qualquer ser humano que em algum momento terá de lidar com as amarras de sua própria história.
Talvez a narrativa que eu escolhi pra mim te dê asco. Talvez teu silêncio dure pra sempre, ou tu apenas mude de assunto. Acho até que tu consegue viver muito ainda. Mas não a minha vida. Pai, essa tu vai ter que deixar pra mim." -  (O pai. p. 51)

x.x.x

Título: As coisas
Autor: Tobias Carvalho
Editora: Record
Edição: 1 
Ano: 2018 
ISBN: 9788501115638
Gênero: Conto / literatura brasileira 
Páginas: 144
Resenha de número: 428





Resenhado por:
Pedro Silva

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