Escrevendo Histórias: O fantástico universo literário de Jadna Alana


Nascida em Campina Grande no ano de 1997, mas criada na cidade pequena de Nova Palmeira, interior da Paraíba, Jadna Alana sempre gostou de criar histórias. Em sua infância brincava de criar quadrinhos e inventar enredos para eles, mas não tinha grandes pretensões com o mundo literário. Ela conta que teve uma infância isolada devido ao cuidado que seus pais tinham, muito influenciados pelo medo da rua. Seus pais, ambos com pouca formação escolar, não possuíam o hábito da leitura, o qual Jadna adquiriu por conta própria como uma forma de escapar do seu isolamento e também uma solução para conhecer novos mundos. 

O contato mesmo com a escrita se deu em sua adolescência, ao ter contato com um professor de filosofia que a incentivava a exercer o hábito da escrita por meio de redações. Foi então que ela começou a perceber que tinha facilidade com as palavras. Influenciada por esse professor, Jadna passou no curso de filosofia na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), porém, por falta de condições financeiras para sobreviver na cidade acadêmica, teve que desistir do curso, passando o ano de 2015 em casa. Esse tempo serviu para que ela entrasse em contato com a obra da escritora best-seller Cassandra Clare e sua série Os Instrumentos Mortais. Jadna, como leitora já possuía um olhar de escritora, e a partir das críticas que fazia a forma com que Clare conduzia sua história foi que a jovem, com então 18 anos, resolveu criar o seu próprio mundo, nascendo então A descoberta - A Saga dos Seis Portais (2016), o seu primeiro livro publicado que tinha como princípio ser uma série de seis obras fantásticas. 

Hoje, Jadna estuda Letras na UEPB. Em sua trajetória como escritora, ela conta com dois romances de fantasia publicados, além de A descoberta (2016): A duologia Os Sete Reinos de Olivarum composta por A Princesa de Ônix (2017) e O Retorno do Príncipe (2018). Como contista está presente em três coletâneas: Era Uma Vez (2017), Os Supremos (2018) e Sedentos por Sangue (2018), organizada por ela. 

Além da escrita, ela também nutre paixão pela música, mas foi escrevendo que ela se encontrou e sonha ser reconhecida pelo trabalho que vem exercendo, apesar das dificuldades que surgem no meio do caminho.

Jadna se considera uma pessoa tímida e não gosta de se expor, mas é nas redes sociais e postando vídeos no Youtube que ela ganha espaço para divulgar o seu trabalho driblando a timidez. Muito falante e receptiva, a escritora gosta de ter um contato direto com seu público. Por meio do Instagram, onde diz que faz magia através das palavras, a escritora está sempre interagindo com os leitores, criando pontes e construindo relações com as pessoas que alimentam, diariamente, seu maior sonho. A plataforma é uma via de mão dupla que possibilita ao público conhecer mais da Jadna e a escritora conhecer quem são seus leitores fiéis e admiradores. 

Buscando fugir de realidades que a escritora considera triste, Jadna escreve sobre seus mundos de uma maneira pessoal e intima. Em Riacho de Jerimum, seu próximo romance ainda sem data de lançamento, por exemplo, ela fala do Nordeste com uma perspectiva - ainda mais - fantástica na tentativa de descrever a realidade nordestina de uma maneira menos cruel, desmistificando o que muitos alimentam: a seca e o sofrimento do povo sertanejo. Ela pega o que muitos consideram negativo e coloca magia, transformando a seca em uma coisa bonita de se ler e imaginar. Com sua linguagem própria, Jadna dá vida a seus personagens e vai criando mundos onde tudo é possível, até mesmo fadas que moram em jerimuns. A escritora, que apesar de criar e passear por muitos universos, não esquece suas origens. Ainda em Riacho de Jerimum, Jadna criou um personagem que atribuiu a ele muitas características do seu avô, que lhe contava fábulas quando criança. No livro, o senhorzinho conta histórias sobre o São João misturando com fantasia. É quando histórias reais e imaginação se misturam para criar algo ainda mais belo: um fantástico mundo de possibilidades. E é pegar as características de quem a rodeia ajuda Jadna a construir personagens tão firmes e fidedignos.

Primeiro volume da duologia Os Sete Reinos de Olivarum. 


Entrevista:

➡ Jadna, você começou no mercado editoral com o livro A Descoberta como uma escritora iniciante e ainda sem experiência. Como foi o salto desse primeiro livro para o segundo publicado?

Jadna Alana: Quando eu publiquei o primeiro eu já criei a ideia de que não ia publicar mais, porque não queria publicar da forma que foi o primeiro já que não foi uma experiência muito boa. Eu queria pagar para publicar, só que não tinha dinheiro para a publicação. O livro (A Princesa de Ônix) já estava escrito, foi concluído em dois meses e passou cerca de um ano em processo de revisão. Então guardei na gaveta, escrevi a continuação, depois outro romance. Escrevi quatro antes de publicar meu segundo livro. Resolvi ficar no mercado editorial só como leitora mesmo. Criei um canal no Youtube, comece a falar de livros no instagram e fui fazendo parceria com editoras. Foi quando surgiu a Editora Coerência e como parceira eu via como eles eram prestativos com os escritores, coisa que coloquei na cabeça e decidi que queria ter um livro publicado por eles e seria escritora Coerência. Entrei em contato com eles pedindo orçamento e ao receber a resposta, percebi que o valor era muito alto para mim. Mas a vontade era maior e comecei a vender rifas e nesse processo conseguiu conversar com a dona da editora e obtive o contrato para publicar com eles com a condição de obter sucesso de vendas para continuar na editora. Eu sempre fui empenhada nas vendas e acredito que eles gostaram disso. No mesmo ano fui para São Paulo lançar o livro, porque meu público lá é maior do que aqui. Quando voltei, recebi a proposta de ser escritora tradicional da Editora Coerência por cinco anos, escritor tradicional é aquele que não paga para publicar. Fiquei morta. Primeiro porque quando eu fui para São Paulo não imaginava que eu tinha leitor. E quando cheguei lá tinha leitor fantasiado, leitor com buquê de flores, vestidos com camisa e com meus livros em mãos. Teve até uma das leitores me disse que fazia um ano que não saia de casa por causa da depressão, mas quando soube que eu ia estar em São Paulo saiu para me ver. Eu chorei tanto nesse dia que me descabelei.

➡ Você pretende tem pretensão de publicar a sequência de A Descoberta, seu primeiro livro? 

J. A.: Não porque foi o primeiro e eu acho a história muito imatura. Eu até gosto de um diálogo ou outro e acho interessante ter escrito isso naquele tempo. Depois de tanto tempo, a gente passa a ler nossas histórias como leitor e não como escritor. Às vezes tenho vontade de dar continuação por causa dos meus leitores pois é algo que eles cobram muito.

➡ Como você enxerga essa questão de ser escritor iniciante e já pensando em uma série tão longa de seis livros para publicar? 

J. A.: Não é tão difícil para escrever porque o escritor gosta de escrever histórias. Se deixar eu escrevo mesmo. Só que seis livros é muita coisa, tanto em termos de gastos para editora quanto seus leitores… Entra também a questão de que se você não for best-seller, infelizmente, não vende os livros, consequentemente, dificilmente publicará as sequências.

➡ Do que se trata a duologia Os Sete Reinos de Olivarum?

J. A.: Nenhum personagem é humano, todos são de um universo que eu criei, inclusive tem o mapa. Alguns pensam que é referência aos sete reinos de Game Of Thrones, mas na época eu não sabia da existência dessa série. Eu quis fazer uma crítica a várias coisas por meio da fantasia que é o que eu amo ler. São sete reinos que possuem uma espécie diferente. É uma crítica ao que a gente vive , dentro dessas diferenças das classes sociais. Há negros, o príncipe que fica em casa e a princesa que sai para a aventura. É um universo imenso.


➡ Como funciona o seu processo de escrita? 

J. A.: Antes eu só escrevia. Eu tinha a ideia e escrevia, não sabia o que vinha no final, só ia escrevendo. Eu gosto que o personagem me guie, e não de guiar ele. É tanto que em A princesa de Ônix, Amie Bell foi criada para gostar de um personagem específico e depois criei um personagem para uma cena, mas na hora da escrita, transferi os meus gostos para o personagem e criou-se um triângulo amoroso por minha influência. Até chegar o segundo livro, eu deixei ela decidir com quem iria ficar. Nas últimas linhas ela decidiu. Era basicamente isso. Quando entrei no curso de escrita criativa, com o professor Anacã, eu fiquei paranoica, você fica assim quando começa a ver a teoria, vendo que as coisas fariam mais sentido de outra forma. Agora no processo do novo livro que se passará aqui no nordeste, ainda com a temática fantástica, foi que eu comecei a criar um esboço mais ou menos. Estou fazendo pesquisas, me aprofundando. Hoje, eu me sinto mais escritora agora do que antes, não que eu não fosse, mas o fato de criar os esboços dos capítulos, pensar na construção dos personagens, por exemplo, pensar em toda a trajetória da infância, as influências dos personagens que justificam as suas ações de hoje me deixa mais confiante, não que necessariamente essas informações sobre os personagens estarão explícitos no livro. 

➡ Você tem participação em três coletâneas de contos, como é sua relação com o gênero?

J. A.: Eu não suporto escrever conto. Entrei no curso de escrita para escrever contos, mas não consigo. Eu gosto de escrever muita coisa, consigo escrever uma história com tempo, com várias páginas; no conto você tem que condensar isso em duas, três páginas, mas minhas ideias são para histórias longas. Tenho dificuldade em condensar as palavras porque escrevo muito. 

➡ Você escreve fantasia, já tentou escrever outros gêneros? 

J. A.: Eu sou uma escritora de fantasia. Eu não consigo fazer romance, por exemplo, já até escrevi para teste, mas não gostei do resultado porque ficou uma coisa muito comum: “Ah, aquela personagem foi para a escola, depois para casa, foi para uma festa e com o menino que ela gosta...”. Eu gosto de explorar lugares novos, conhecer coisas novas. A realidade já é muito triste e eu preciso me teletransportar para algo mais além que só existe na minha cabeça e vai me deixar bem. Terror eu gostei de escrever, mas ainda não superou meu gosto pela fantasia. E a comédia acredito que nunca vou escrever porque não tenho essa veia cômica.

➡ Seu novo romance, Riacho do Jerimum, está mais próximo de ti? 

J. A.: Está sim porque é sobre a cidade onde eu cresci, é algo voltado para o nordeste. Mesmo que não seja um livro que traga a linguagem regionalista, porque gosto da linguagem formal para escrever, o livro trata da seca de uma forma muito diferente também, sem ser da forma triste que é muito retratada. No livro existem duas deusas que reinam nesse lugar. Uma delas é a da chuva, da prosperidade que governa todos os seres. Os jerimuns são em referência as fadas que vivem nesse fruto, os jerimum são as casas das fadas que só nascem aqui. Eles adoram essa deusa. Porém, existe uma outra deusa que quer tomar e trazer a seca. Há um embate entre as deusas e muita referência ao nosso folclore conhecido. Então é algo que está perto de mim. Eu usei o meu avô como referência para criar um senhorzinho, porque meu avô me contava muitas fábulas. Tem um senhorzinho que conta essas histórias da vila, sobre São João, mas misturado com a fantasia. É o que tá próximo, eu estou escrevendo sobre o que eu tenho conhecimento.

➡ Quais são seus anseios ao escrever em relação a receptividade do público? 

J. A.: Com relação a isso, eu tenho medo... Eu já escrevi o primeiro, sei que eles gostam e o segundo vai ser a mesma coisa. Agora com relação a Riachos de Jerimum eu tenho muito medo, porque querendo ou não o Nordeste é uma região em que as pessoas enxergam com esteriótipos. O próprio título - “Riachos de Jerimum” - é uma coisa incomum para os leitores. Ficam até fazendo meme, brincando no grupo, colocam um jerimum, riacho, água, eles ficam resenhando entre eles, internamente. Mas mesmo assim eu tenho medo de como eles vão receber isso, porque de certa forma é uma cultura que não tem respeito, tem preconceito e ainda mais nesse cenário político de agora, então meu medo é com relação a isso. Ainda que eu ache que mostro o Nordeste por outro ponto de vista, sem tocar nas tristezas, trazendo algo fantástico, bonito, porque pra mim até a imagem da seca, com elementos fantásticos, é algo bonito… A estética é bonita, mas eu tenho medo. Então assim, eu tenho medo da crítica deles, já que sempre há aquela expectativa. Quando eu escrevo sempre acho que está genial, o meu problema é o processo de revisão. Eu não consigo alterar muita coisa porque penso que tô modificando o pensamento daquela Jadna que escreveu naquele determinado momento. No processo de revisão eu choro, eu sofro, na faculdade eu me sinto morta, por causa desses receios de o leitor receber, aí quando é publicado que recebo o retorno deles, eu fico super feliz.

➡ Do que se trata esse novo romance? Ele está mais próximo de ti?

J. A.: Está sim porque é sobre a cidade onde eu cresci, é algo voltado para o Nordeste. Mesmo que não seja um livro que traga a linguagem regionalista, porque gosto da linguagem formal para escrever, o livro trata da seca de uma forma muito diferente também, sem ser da forma triste que é muito retratada. No livro existem duas deusas que reinam nesse lugar. Uma delas é a da chuva, da prosperidade que governa todos os seres. Os jerimuns são em referência as fadas que vivem nesse fruto, são as casas das fadas que só nascem aqui. Elas adoram essa deusa. Porém, existe uma outra deusa que quer tomar o lugar. Há um embate entre as deusas e muita referência ao nosso folclore conhecido. Então é algo que está perto de mim. Inclusive eu usei o meu avô como referência para criar um senhorzinho, porque meu avô me contava muitas fábulas, então tem um senhorzinho que conta essas histórias na vila, sobre São João, mas misturado com a fantasia. É o que tá próximo e eu estou escrevendo sobre o que eu tenho conhecimento.

➡ O que você tem a dizer aos novos leitores que irão entrar em contato com o seu livro? O que vão encontrar em suas obras? 

J. A.: Como eu gosto de ler fantasia, eu sempre tento trazer ela de outra forma, tipo, tento mudar o máximo que eu conseguir. Quando o leitor ler meu livro, ele já vai saber que vai ler algo fantástico, independente de qualquer coisa, vai ter fantasia. Outra coisa que sempre tem é que eu gosto muito de trazer uma dualidade dessa coisa do dark como algo que não é ruim, o preto como algo que não é ruim, por exemplo, em A Sombra da Noite (conto disponível na antologia Os Supremos) a personagem é uma super heroína da noite, que só atua a noite, então ela é super dark, gótica, mas ela é uma menina boa e que faz coisas boas. Então, eu acho que eu cresci muito vendo isso, gostar sempre dessa coisa do lado sombrio, eu gosto muito da noite, então todo mundo vai dizer pra mim que isso é uma coisa satânica, isso é uma coisa do mal, que o preto tá sempre associado a morte e eu não acho que isso seja, então em algum lugar você vai ver na minha escrita algo relacionado a coisas sombrias mas não necessariamente como algo ruim ou algo mal. Do diferencial é isso, eu tento mudar todos os seres místicos que todo mundo usa e tento distribuir dentro de um livro só pra vê se consigo fazer algo novo. Vou sempre tentar trazer algo diferente apesar de saber que muitas coisas já foram usadas e reutilizadas.

➡ Por fim, quem é Jadna Alana? 

J. A.: Olhe, uma pessoa que faria qualquer coisa pra não precisar está se expondo, porque eu sou uma pessoa muito insegura. Então tudo que eu escrevo acho que tá uma merda. Todas as pessoas são assim, no fim das contas, mas eu sou fora do comum. Eu tenho muita ansiedade e, por exemplo, uma coisa que eu falo é “ah eu aceito crítica muito bem”, não, eu não aceito, ninguém aceita, mas eu sou fora do comum, se você falar “eu li seu livro e acho que aquela cena me incomodou”, por mais que seja uma besteira eu vou impressionar aquilo e pra você eu vou dizer “menino, legal, eu vou mudar, obrigado”, isso é por fora, mas por dentro eu tô me acabando todinha, e quando por exemplo eu posto muitos stories, por dentro eu fico super empolgada, quando eu termino, fico meu Deus eu vou apagar, fico o dia inteiro pensando em apagar, porque eu pensei que falei besteira ou que qualquer coisa que for. Eu não me acho tão diferente do que sou como escritora ou como Jadna. Eu sou uma pessoa que fala muito, que adora tá conversando, mas que também adora se isolar, adora tá no meu mundo, que gosta de ficar trancada no quarto escrevendo. Sou uma pessoa que não sai muito com os amigos, me considero uma pessoa ausente na amizade por causa disso. Se você me ver uma uma festa, houve uma problema, algo muito grave, porque eu não saio. [Minha cidade é conhecida como o melhor carnaval da região e eu não saio um dia de carnaval.] Minha mãe fala que eu perco de viver e eu digo “não! eu tô vivendo várias vidas, que são as vidas que eu quero viver, essas que tão aí, não dá pra mim”. Mas eu sou a mesma Jadna, algumas diferenças são relacionadas a ansiedade, insegurança, sou muito insegura, muito chata também, é uma coisa que tento mudar também. Fora essa questão de me expor, que eu não gosto, mas preciso, é isso, é em prol do que eu amo, eu faço qualquer coisa por eles.

Produção:
Andreza Valdevino, José Pedro da Silva Júnior, Kermelly Kelly e Luana Alberia


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