'Você Tem a Vida Inteira' , de Lucas Rocha

Uma história tocante, quase que real, de pessoas comuns que precisam enfrentar a  sociedade com seus preconceitos e julgamentos. Um livro sobre luta, coragem e força. A narrativa de encontros e desencontros, acasos e coincidências do universo, de vidas que se enlaçam e se tornam mais fortes quando se unem. Três pessoas. Três diagnósticos. Dois positivos. Três vidas entrelaçadas por uma consequência: soropositividade.


Victor conhece Ian no dia que os dois recebem o resultado de seus testes de HIV, assim trocam números de celular para manterem contato e conversarem sobre o resultado positivo de um dos dois. É dessa forma que um sentimento de amizade começa a nascer entre eles. Ambos são universitários com inúmeros planos e ambições futuras, e ter o resultado positivo pode abalar a vida de um desses jovens.
"O primeiro passo é admitir para você mesmo que, não importa qual seja o resultado, a vida continua.”
Henrique, um tanto mais velho que seu namorado Victor, não tinha esperanças de amar novamente, pois seu último relacionamento tinha arrancado suas esperanças afetivas, porém ao conhecer Victor ele sente que aquele garoto de cabelos azuis será diferente dos outros caras já tinha conhecido.
A relação deles se abala quando se descobre que um deles tem o vírus HIV. Todo amor que parecia existir talvez não resista a um diagnóstico como esse.

Ian nunca se apaixonou e espera conhecer alguém que lhe mostre tal sentimento. Victor não sabe se está preparado para tudo que o amor pode trazer para sua vida, e sente medo de entregar-se a esse amor que é ,ao mesmo tempo, tão quente e sombrio. Henrique sabe o que quer, porém as circunstâncias podem tirar dele aquilo que demorou tanto para chegar.

Meio que sem querer, as vidas dessas três jovens se juntam nessa narrativa sobre a imprevisibilidade do que nos cerca e que não precisamos nos culpar para seguir em frente, mas sim perdoar a nós mesmos para perceber que no fim não existem culpados, apenas circunstâncias para serem superadas.

“A gente acha que é um tipo bizarro de super-herói, e que as histórias que ouvimos por aí não existem. Como se o HIV fosse um grande delírio coletivo que só acontece com as pessoas nos filmes tristes que concorrem ao Oscar.”
Uma narrativa que levanta, de um jeito lindo e claro, a discussão sobre um tema ainda pouco falado: HIV+. A construção desse enredo, a partir de três perspectivas, foi muito interessante e esclarecedor, pois nos permite conhecer melhor os personagens e suas reações diante dos acontecimentos na história.

Esse foi segundo livro que li com essa temática, sendo que esse tem um ar mais descontraído e fácil, o que deixa a discussão mais leve sem tirar sua importância.
Vê que uma narrativa tão contemporânea escrita por alguém jovem trazendo uma questão que precisa ser falada frequentemente, me deixa muito feliz. Temos que estar abertos para falar sobre coisas ainda tão tabus, as quais muitas pessoas preferem deixar para discutir de última hora, quando não se pode fazer mais nada.

Os mais diversos tipo de família permeiam esse livro, mostrando-não que essa é uma instituição que vai além de laços sanguíneos e que o amor sincero é que define nossa família. Amigos são imprescindíveis para qualquer um, e muitas vezes eles são nossa única família, quem nos apoia e nos faz prosseguir mesmo em meio a dúvida e dor. Henrique é a prova viva disso. Ao ser expulso de casa por ser gay, ele  vai morar com seu amigo e finalmente encontra seu lar.

"O medo não é um monstro de quinze metros de altura para o qual eu tenha que me curvar"
A história mostra três reações familiares (sanguíneas) diante da homoafetividade dos filhos: na primeira, cegos pela religiosidade e a "boa imagem" para a sociedade, os pais colocam o filho no olho da rua e o esquecem, abandonando-o a própria sorte, esquecendo de todo amor que um dia disseram sentir por ele; na segunda, pais que não aceitam a sexualidade do filho e optam por nunca mencionar o assunto em casa, não o menosprezam, mas também não o ajudam com seus medos e inseguranças; e na ultima, uma reação digna e infelizmente pouca vista: cheios de amor, os pais acolhem seu filho e dão todo apoio que ele precisa para ser feliz. Trazer essas realidades foi algo muito acrescentador para a obra, pois nos permite visualizar a dura vivência que algumas as pessoas passam pelo simples fato de amarem.

Uma das cenas mais lindas e me emocionou, foi quando um dos protagonistas pede conselho para o seu pai afim de consertar as coisas com seu namorado, e o pai o ajuda com todo carinho. Isso foi lindo e nos faz perceber que é assim que coisas devem ser: simples. O pai não questiona o fato do filho gostar de garotos, ele apenas se preocupa em ajudar-lo a tomar a melhor decisão e fazer a coisa certa. Tenho certeza que pedir ajuda ao pai para seu relacionamento homoafetivo é uma ideia que poucas pessoas cogitam, infelizmente.

"Não sei se aquele é um bom conselho, mas acho que é tudo o que meu pai consegue formular em tão pouco tempo. Sorrio aí perceber que ele parece sem jeito falando sobre garotos com o filho mais velho, mas ainda assim o faz sem nenhum tipo de julgamento."

Algo que eu adorei foi o modo como o autor trabalhou o medo que o portador do vírus HIV tem de perder o emprego por isso e a reação do chefe ao descobrir essa condição do seu funcionário. Ser soropositivo não diminui a capacidade de se exercer a profissão da melhor forma possível e como é bom saber que ainda existem pessoas que, independente de qualquer coisa, só visam o profissionalismo do seu funcionário e não deixam que a vida pessoal e sexual deles afetem suas decisões na empresa.

O que faríamos nessa vida ter amigos, não é mesmo? Lucas Rocha mostrou como ter amizades sinceras são importantes para nos afirmamos na sociedade e não abrirmos mão de ter nossa identidade. Amigos nos ajudam, apoiam e lutam ao nosso lado mesmo que achem que não levará a nada. Eles também abrem nossos olhos quando estamos sendo babacas e secam nossas lágrimas quando alguém nos fere. Amizade é algo tão lindo, tão crucial para se viver de fato que não dá pra imaginar uma vida sem amigos e principalmente sem aqueles que nos fazem enxergar algo bom em meio ao caos que é a existência.

A capa está a coisa mais fofa: as cores da pluralidade, do humano, da vida, do amor. A diagramação tem detalhes bem legais no início e no fim de cada capítulo. A narração em primeira pessoa, se alterna entre os três protagonistas e isso nos permite conhece o medo e os sentimentos de cada um deles.

"Aprendemos que a melhor maneira de seguir em frente é não fomentar a raiva e perdoar aqueles que não nos fizeram bem."


O livro deixa uma mensagem clara de que é importante se prevenir, mas que se algo fora do planejado acontecer... Nada de desespero e pensar em desistir ou fazer alguma loucura, pois dá pra ter uma vida normal (e até saudável) sendo soropositivo e que no Brasil o tratamento é sério e muito bom para as pessoas que portam o vírus  HIV. O mais importante é diagnosticar o mais rápido possível para que o tratamento se inicie o quanto antes.

"Você Tem a Vida Inteira" é um livro com personagens cativantes cujo o maior desejo é extrair o máximo de coisas boas que a vida tem a oferecer. A escrita fluida do Lucas, nos faz caminhar entre temores e inseguranças daqueles que só querem amar, ser aceito por serem quem são e viver.

Ficha técnica:

  Título: Você Tem a Vida Inteira
  Autor: Lucas Rocha
  Editora: Galera Record
  Edição: 1 
  Ano: 2018 
  ISBN: 9788501115546
  Gênero: Romance jovem-adulto brasileiro
  Páginas: 288
  Resenha: #406

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