'Shirley', romance vitoriano de Charlotte Brontë

"A diferença de idade e a diferença de temperamento levam a uma diferença de sentimento. Não se pode esperar que os jovens e impacientes tenham as mesmas opiniões das tranquilas pessoas de meia-idade." P. 283
Além de ser a mais velha das irmãs Brontë, Charlotte é também a que mais produziu e publicou. Seu romance mais conhecido certamente é o "Jane Eyre", de 1847, assinado com o pseudônimo Currer Bell devido as adversidades da época para as mulheres dentro de um duro contexto patriarcal da Grã-Bretanha. Apesar disso, Charlotte não se viu impedida de escrever romances com personagens femininas marcantes e de personalidade forte, a exemplo disso é o seu segundo romance intitulado "Shirley" (também Currer Bell), de 1849,  um dos mais longos em número de páginas e que recebeu a tarefa de ser uma crônica social sobre o processo de industrialização da Inglaterra, passando-se no durante as guerras napoleônicas de 1811 e 1912.


Partindo desse pressuposto, "Shirley" é uma obra ambiciosa sobre duas heroínas órfãs que trazem em suas personalidades singularidades conflitantes. A primeira delas é a órfã Caroline Helstone: uma  bela jovem de 18 anos que vive sob a custódia de seu tio na casa paroquial de Yorkshire. Sua vida se resume a fazer visitas à prima a fim de receber uma educação em etiqueta e idiomas. A segunda delas, que só vem aparecer no primeiro terço do livro, é a  imponente Shirley Keeldar, de 21 anos, que herdou uma propriedade na região e uma fortuna de seus pais. Essa fortuna, de certa forma, dá a liberdade para que Shirley viva não só com mordomia, mas também desfrute de maior autonomia para realizar as atividades que lhe convém, não abrindo mão de se comportar ou falar o que pensa por motivos de opressão, submissão ou para manter as aparências e agradar o meio social. 
"— Só fico pensando por que nós todas não decidimos permanecer solteiras — disse Caroline. —Decidiríamos, se déssemos ouvidos à sabedoria da experiência. Meu tio sempre fala do casamento como um fardo; e eu acredito que todas as vezes em que ouve falar de um homem se casando ele invariavelmente o considera um tolo, ou de qualquer maneira, alguém que comete tolice.
— Mas os homens não são todos iguais ao seu tio. Certamente não... Espero que não." P. 303
Ambas têm seus caminhos entrecruzados e acabam se tornando amigas. É dentro dessa amizade entre elas que surge a informação da paixão de Caroline por seu primo Robert Moore — que pode ser considerado o príncipe encantado da obra como figura masculina, embora não seja ele o grande herói e o personagem mais importante em todo o livro. Por sua vez, o Sr. Moore é um industrial do ramo têxtil e que está passando pelo processo de industrialização, a espera de uma carga contendo o maquinário necessário para o funcionamento da sua industria e que vai aumentar o nível de produção e diminuir a mão-de-obra, informação que não agrada os coadjutores que dependem do emprego. É assim que um conflito entre patrão e operários eclode em um motim com quebras de máquinas que ficou conhecidos como o movimento Ludismo. Por um lado temos um patrão que não quer ceder, principalmente motivado pela concorrência e o medo de ficar para trás, e do outro os trabalhadores que estão passando dificuldades. 
"O senhor pode ver que a gente está mal, muito mal; nossas famia vive na pobreza e com muita fome. A gente tá sendo demitido do trabalho por causa dessas máquinas; num podemo arranjar nada para fazer; num podemo ganhar nada. O que é que se pode fazer? A gente deve de dizer, shhh!, e deitar e morrer? Não; eu num sei falar bonito, Sr. Moore, mas acho que deitar e morrer de fome como um tolo ia ser uma ideia vregonhosa pr'um home sensato: isso não vai contecer comigo. Num sou a favor de derramar sangue: eu num mataria nem machucaria ninguém; e num sou a favor de destruir fábrica e quebrar máquina; pois como o senhor disse, fazer isso num vai impedir as invenção; mas eu vou falar; vou fazer o maior baruio que puder. As invenção pode ser muito boa, mas eu sei que num é certo os pobre morrer de fome. Os que governa tem qu'econtrar um modo de ajudar a gente; eles precisas fazer umas arrumação diferente." p. 201

Narrado em terceira pessoa, "Shirley" é um tipico romance vitoriano, rico em descrições de cenários, personagens e situações da época e que diminuem o ritmo de leitura da obra, pois assim exige uma maior atenção do leitor para se familiarizar com personagens e ambientes descritos, além dos contextos. Mesmo com isso, o livro não chega a ser massante, ao contrário, é uma leitura prazerosa e extremamente envolvente, em especial ao olharmos para as personagens centrais com foco na Shirley, que quando aparece no livro rouba totalmente a atenção. Ao contrário de Caroline que é uma mulher romântica e sofre os enfermos da paixão e transpassa uma insegurança em relação a si mesma.

Shirley é segura de si e sabe muito bem lidar com situações que, para a época, uma mulher apenas iria se calar e conter os seus pensamento. Outros personagens não são tão marcantes quanto esses já citados, por outro lado, quando contracenados com os principais acabam gerando situações marcantes, seja por um pensamento retrogrado ou uma situação em que são colocados em seus devidos lugares por Shirley, o que chega a ser hilariante para o leitor.
Em alguns momentos da trama, nos deparamos com conflitos novelescos, revelações dramáticas sobre o passado da família de Caroline e paixões avassaladoras que desejam quebrar qualquer barreira que os separem, o que não deixa de ser extremamente instigantes.

Ao longo do livro há muitas referencias deste romance com a bíblia e inserções propositais da autora, além de muitas frases e palavras em francês, o que é assegurado com um glossário nas últimas páginas nesta edição da Martin Claret, junto ao sotaque carregado de Yorkishire que na tradução foi mantido similar, mantendo um brilho a mais.

O final de Shirley, para alguns, pode ser decepcionante ou até mesmo previsível com algumas páginas de antecedências. No entanto, é errado dizer que não seja um final cheio de equilíbrio e que coloca em uma balaça, com mesmo peso, homens e mulheres, que proporciona a harmonia entre patrões e empregados e classes sociais.

Charlotte Brontë, em "Shirley" revela sua personalidade consciente e o seu conhecimento da realidade social e politica de sua época. Esboçando seu ponto de vista através do romance histórico, ela nos mostra, à época, o que uma mulher poderia ser caso tivesses condições (intelectual, financeira, independência) iguais, ou superiores, as dos homens. Por fim, fica o questionamento: é mais feliz aquele que possui riquezas ou o ser que é reciprocamente apaixonado?


Ficha técnica:


Título: Shirley
Título OriginalShirley (1849)
Autora: Charlotte Brontë
Tradução: Solange Pinheiro
Editora: Martin Claret
Edição: 1
Ano: 2017
ISBN: 9788544001462
Gênero: Literatura Inglesa: Romance
Páginas: 912

Avaliação: 



Resenha de número 402



Até mais,
Pedro Silva


Nenhum comentário:

Obrigado pelo seu comentário!

Tecnologia do Blogger.