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Resenha #395: Enterre Seus Mortos - Ana Paula Maia

Título: Enterrem Seus Mortos
Autora: Ana Paula Maia
Editora: Companhia das Letras
Edição: 1
Ano: 2018
ISBN: 9788535930672
Gênero: Literatura brasileira / romance
Páginas: 136

Avaliação: 





Resenha


Enterre Seus Mortos é o sétimo romance da autora carioca Ana Paula Maia, inserindo, assim como na maioria de seus livros, um de seus personagens recorrentes: Edgar Wilson, aqui como personagem central. 

Edgar Wilson é um homem duro, simples, de força e “que nunca conheceu um trabalho que não estivesse ligado com a morte”, mas que diante dela não se mantem insensível. Seu trabalho atual consiste em recolher, na caçamba de seu veiculo, os corpos de animais mortos das estradas e encaminhá-los a um deposito onde são triturados num moedor e transformados em material orgânico para adubo, entre outras coisas. 

A sua rotina consiste em atender os chamados de Nete, a secretaria que informa sobre os corpos de animais nos trechos das estradas que devem ser recolhidos imediatamente. Nete é uma personagem que aparece pouco, embora tenha um papel interessante na obra, já que uma parenta está desaparecida e ninguém sabe o paradeiro. Além dela, Edgar Wilson tem como companheiro de profissão Tomás, um padre excomungado que exerce a mesma profissão. 

Em certa ocasião, Edgar Wilson acaba por encontrar um corpo de uma mulher enforcada na floresta. Ele sabe que a polícia local não possui recursos para recolher o corpo. É quando decide, comovido, talvez, recolher o corpo como faz com os animais e levá-lo para o deposito a fim de guarda-lo no freezer para que os policiais possam investigar as causas e oferecer um fim digno e melhor do que ser alimento dos abutres que rondam a região. Como se não bastasse o primeiro, em meio ao trabalho, outro chamado o leva a encontrar um segundo corpo, dessa vez de um homem que dá incentivo para que os dois homens façam o trabalho das autoridades. 

Enterre Seus Mortos, apesar de curto, consegue condensar as ideias da autora em uma história rápida, mas de digestão pesada, com cenas fortes e de descrições detalhadas numa narrativa crua, sem rodeios, sem floreios e direta ao assunto. Realmente uma história objetiva.

O mais interessante são os principais temas abordados pela autora que estão bem claros: o descaso em relação aos seres humanos vítimas nas estradas e que observam o resgate chegar para os animais, mas não para eles. Um descaso que deixa de lado o humano: 
“A quantidade de prostitutas e travestis vem diminuindo consideravelmente nos últimos meses, mas diferente do que ocorre com os animais mortos nas estradas, que são catalogados e têm seu número estimado mensalmente numa tabela pregada na parede às costas da sala do gerente do depósito, os outros, junto com os bêbados e drogados, não preocupam ninguém quando desaparecem.” P. 60 
Além disso, somos apresentado a um contexto de discursos religiosos fervorosos, de interpretações incertas e extremistas, assunto presente na sociedade brasileira e que gera, atualmente, uma onda de conservadorismos: 
“Por todos os lados o discurso é inflamável. De dia e de noite as chamas do infernos ardem em suas bocas. O desejo do coração é de vingança. Deus está vivo e quer matar. – paz? – anuncia um dos fiéis ao ser interpelado – Quem disse que eu quero paz? Eu vim trazer a espada, eu vim trazer a divisão. Eu vim jogar o filho contra o pai. Foi isso o que Jesus disse.”. 
O livro é curto, sem ambientação definida, não possui muitos aspectos surpreendentes, muito menos uma escrita floreada, porém, consegue ser forte, tocar em assuntos polêmicos que, ao passar por nós, deixa marcas profundas, seja pela brutalidade das descrições ou pela rudez do espaço em que a história se passa.



O livro foi enviado pela editora.

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