A realidade angolana de 'Regresso Adiado' [Manuel Rui]

     Regresso Adiado é uma coletânea de contos do autor angolano Manuel Rui editado pela primeira vez em 1973 e reúne cinco contos onde o autor aborda, de várias formas, os embates gerados pelos conflitos entre culturas: de um lado a Europeia, do outro a angolana; de um lado colono, do outro colonizador.

     O livro se abre com o primeiro conto intitulado "Mulato de sangue azul", onde acompanhamos a trajetória do personagem Luís Alvim, um escriturário que se orgulha do lado paterno, de família europeia nobre e que se mantem distancia dos negros e mulatos da região. Nessa trajetória obsessiva de negar o seu lado negro, o personagem usa brilhantina para alisar os cabelos crespos, impõe uma bengala fina que era de seu pai, fala com linguajar rebuscado e acaba passando por situações constrangedoras na busca por esse branqueamento. Esse conto, apesar de triste, traz um tom de ironia em suas páginas. Manuel Rui mostra, através de um personagem descrito de maneira caricata, a inferioridade que alguns negros sentem por sua pele, onde o branco europeu é a cor ideal para se ter, e a outra esta ligada a uma classe baixa, não digna de nobreza.

     Sátira que se mistura com uma narrativa sensual no conto "O Aquário", onde Leonor, a patroa de pele branca se encanta pelo escravo num jogo das diferenças de classe e relações sexuais, já que a relação inter-racial era tida como ilegítima advinda do preconceito. Mas Manuel Rui mostra que esse pensamento é equivocado e, inerente ao humano, aflorar o desejo no outro, independente da cor, resultando numa ação imediata que acaba em tragedia para aquele que não possuía culpa. 
     "Com o sem pensão" é um dos contos que mais ganham brilho na obra. Armando Bernardo sai da Angola e vai à Lisboa, em Portugal, estudar direito, assim, anuncia no jornal o interesse em alugar um quarto para morar. Em uma sucessão de andanças, o rapaz vai visitando as possíveis casas onde poderá passar a dormir, ambientes com suas singularidades. Na última das casas, o rapaz se depara com uma família de brancos, já passando necessidades, e que precisa urgentemente de dinheiro para se sustentar. É então que a matriarca oferece descontos ao Armando, que embora seja uma proposta tentadora, não garante a estadia por não oferecer as condições básicas para se viver. Nesse conto, o autor desconstrói a visão do homem africano de cor, mostrando que o inverso também sofre das mesma mazelas, independente de onde esteja ou de onde venha.

     "Em tempo de guerra não se limpam armas" a alienação volta a ser temática através do personagem negro Ribeiro Vintesete, ex-soldado português, pego de súbito por brancos que desconhece que ele possui documentos e é cozinheiro do Doutor Carlos Ferreira. Vintesete é mais uma vitima da alienação, que foi retirado de Nova Lisboa (hoje Huambo) e transformado em "cidadão português".

     Para fechar em "O Churrasco" temos, ao contrário, a figura de um colonizador sendo trabalhada. Correira é mais um dos personagens alienados de Manoel Rui, que desconhece sua posição e nem entende seus privilégios como colonizador. Por ser ridicularizado, acaba ganhando a confiança dos negros e se aproveitando disso para ganhar dinheiro.

     Com cinco contos abordando essas temáticas relatadas, Manuel Rui em seu primeiro livro de contos já se mostrava um autor consistente e com a mente ligada em assuntos que são fruto de sua condição como angolano, mulato, em uma realidade vivida e sentida, mas sem se alienar ou perder a sua criticidade. 

     Regresso Adida é uma obra séria por ser um registro ficcional de um processo árduo que algumas civilizações passaram nesses choques culturais que influenciaram nas crises de identidades e que propõe a reflexão ao nos colocar junto dos sentimentos das personagens por vezes atrozes, por vezes vítimas, sem deixar de ser uma excelente literatura de se ler no sentido emocional.

Sobre o autor

Manuel Rui nasceu em Huambo,  Angola (1941), onde concluiu os estudos e a partir de 1961 passou a residir em Coimbra, em cuja universidade se licenciou em direito e exerceu a profissão. Participou ativamente na vida cultural e política de Angola no período que se seguiu à independência daquele país. É cronista, crítico e ensaísta. e possui uma série de livros publicados e traduzidos para diversas línguas, que navegam pelos gêneros da poesia, do contos, do romances e obras para o teatro. Também é de sua autoria o hino oficial da Angola. Seu livro mais popular se chama Quem me dera ser onda, entre outros publicou Crônica de um MujimboRiosecoUm Anel na AreiaConchas e BúziosO Manequim e o PianoEstórias de Conversa. Hoje o autor reside em Luanda.

Extra: entrevista com Manuel Rui para a TV UFBA

Ficha técnica 

edição da Cotovia
 Título: Regresso Adiado
 Autor: Manuel Rui
 Editora: Edições 70 - Lisboa
 Edição: 1
 Ano: 1978
 Gênero: Contos angolanos / literatura africana
 Páginas: 161

Avaliação: 

Resenha de número #394




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