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Resenha #389: Lincoln no Limbo - George Saunders

Título: Lincoln no Limbo
Título original: Lincoln in the Bardo (2017)
Autor: George Saunders
Tradução: Jorio Dauster
Editora:  Companhia da Letras
Ano: 2018
ISBN: 9788535930764
Gênero: Romance / literatura norte-americana
Páginas: 408


Avaliação: 




Resenha



No original, o título desse livro é Lincoln in the Bardo. Bardo, para o budismo, é o lugar intermediário entre morte e renascimento; um lugar onde a alma se sapara do corpo e espera para a etapa seguinte. O que talvez seja um tanto diferente da tradução de limbo, que segundo a teologia cristã, se refere a um lugar onde ficam as almas justas, que ainda não foram batizadas e que não deve ser confundido com purgatório.

Explicado isso, vamos ao enredo de Lincoln no Limbor. No ano de 1862, William Wallace Lincoln, o terceiro filho de onze anos do presidente Abram Lincoln e Mary Todd Lincoln vinha doente desde o início do ano junto com seu irmão Tad, provavelmente de febre tifoide contraída pelo consumo de alimentos/água contaminados.. William, que aos poucos vinha definhando, veio a falecer no final da tarde do dia 20 de fevereiro daquele ano. Após a morte da criança, uma tristeza profundo assolou a família. Sua mãe ficou de cama, e o pai passou então a visitar a cripta do menino com frequência e embalava o filho no colo. É a partir desse fato real que escritor americano George Saunders constrói o seu primeiro romance, consagrado com o Prêmio Man Booker de 2017.

Misturando elementos sobrenaturais em um fundo histórico, a obra se passa totalmente em uma única noite, durante e após a morte de Willi, no limbo onde ele se encontra com outros mortos, fantasma que possuem desejos que em vida não conseguiram realizar, e que por isso se encontram presos ali. Essas almas não têm conhecimento sobre as suas mortes, e acham que estão enfermos e seus caixões são "caixas de doentes". Esses novos "amigos" do recém chegado Willi vão ajudar, de alguma forma, o garoto a encontra a saída desse lugar, já que a criança espera incessantemente o retorno de seu pai.

Ler Lincoln no Limbo é diferente de tudo o que eu já havia lido antes. Sua estrutura narrativa é original, e segue sendo contada através das inúmeras vozes narrativas que o livro possui, como se fosse uma especia de estrutura teatral. A maioria das falas são entre os falecidos que ainda continuam no bardo, conversas que na verdade são mais divagações e frases que contribuem para a formação do outro, como se fosse uma série de pensamentos de várias pessoas recortados e costurados em sequência.

Essa forma de estruturação do romance é estratégica, proporciona e dá espaço para inúmeras personagens falar e ao mesmo tempo priva o autor de muitas descrições, sendo que as descrições existentes no livro são colocadas nos micro-blocos  narrativos de cada personagem.

Em meio a tais trechos, há ainda a presença de relatos reais, provavelmente fruto de uma profunda e longa pesquisa do autor, como cartas sobre a Guerra Civil americana, textos jornalísticos, e históricos que dão uma visão externa sobre o sofrimento da perda e o que se passava no senhor Lincoln.  E não é só a morte do filho que pesa na consciência do presidente, afinal, a Guerra Civil estava em curso e as mortes dos jovens no campo de batalha também fizeram efeito naquele homem.

O motivador do livro para o leitor é saber se o menino encontrará um caminho a seguir. Ele está no limbo, sendo assim, ainda acreditamos na possibilidade dele voltar ao seu corpo, ou morrer de vez e seguir o trajeto que o livro supõe ser o do nosso fim (afinal, ninguém voltou da morte para explicar como é por lá).
Apesar do início de estranhamento por essa narrativa fragmentada e experimental, a leitura é recomendada, tanto para quem se interessou, quanto para aqueles que querem fugir um pouco de sua zona de conforto. Lincoln no Limbo tem seus momentos de melancolia, nos transmite tristeza e consegue ser uma forma de refletirmos, através dessa história, sobre os temas universais da humanidade como vida e morte, e o que vem após o fim.

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