Resenha #353: No Seu Pescoço - Chimamanda Ngozi Adichie

Título: No Seu Pescoço
Título original: The Thing Around Your Neck (2009)
Autora: Chimmamanda Ngozi Adichie
Tradutora: Julia Romeu
Editora: Companhia das Letras
Edição: 1 
ISBN: 9788535929454 
Gênero: Contos
Ano: 2017 
Páginas: 240 

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Resenha


Retirando os dois curtos ensaios "Sejamos Todos Feministas" e "Para Educar Crianças Feministas", o "No Seu Pescoço" foi meu primeiro contato com a escrita da autora e agora tenho uma ideia maior de por que tantas pessoas se apaixonam por seus livros.

A coletânea "No Seu Pescoço" traz doze histórias escritas nos últimos anos e trazem em sua maioria alguns temas centrais como racismo, imigração, opressão, violência, politica, religião e sexualidade e se passam ou nos Estados Unidos, na  Nigéria ou entre esses dois países.

Falo um pouco a seguir de cada um dos contos (isso vai ficar um pouco longo).

A cela um: traz uma família lidando com o filho problemático que acaba sendo preso. Em sua sela, ele passa algumas necessidades devido a má alimentação e as condições precárias do tratamento que recebe dos policiais. Ao tentar defender um outro preso, já idoso, ele acaba agravando a sua situação no presidio, passando por torturas na cela um, uma especie de solitária. Neste conto, a autora traz um crítica acerca do sistema carcerário Nigeriano, onde as pessoas são as únicas injustiçadas. Há também uma forte diferença em relação aos gêneros, já que o garoto recebia mais destaque do que a sua irmã.

Réplica: Nkem e Obiora são casados, embora vivam em países distintos. Por conta do trabalho, Obiora passa a vida da Nigéria e só visita a sua esposa dois meses por ano. Até que por intermédio de uma amiga, Nkem descobre que seu esposo possui uma amante e que vive com ela na sua antiga casa. Então, ela passa a se preparar para recuperar a sua posição no casamento, e deixar de lado a vida solitária dos Estados Unidos junto com seus filhos.
Conto muito bem escrito e que mostra um pouco de algo que pelo visto já se tornou tradicional: As mulheres que são sujeitas as seus esposos. Nkem se produz toda e age em prol do marido, embora este não mereça tanto assim. E quando ela recebe a triste notícia da amiga, toma as rédeas e uma iniciativa para tal.

Uma experiência privada: Esse conto se passa durante um ataque de uma hausas muçulmanos contra igbos cristãos num mercado de rua. Chika acaba ficando isolada em uma loja com uma desconhecida, e se lamenta pela irmã que desapareceu na confusão.
Aqui, a autora traz uma bela crítica em relação a essa intriga étnica, já que Chika é igbo e a mulher que lhe ajuda é hausa. Outro ponto é destacar a pluralidade do país.

Fantasmas: Um professor, que recebe constantemente visitas do fantasma de sua esposa, acaba reencontrando um companheiro,ativista politico, que achava estar morto e assim relembram juntos as histórias do passado como as guerras e as percas pessoais. Esse é o único conto com narrador masculino, e também serve como base para a autora falar das intrigas politicas e na relação dos refugiados.

Na segunda-feira da semana passada: Mesmo com o mestrado, Kamara é sujeita a trabalhar como babá nos EUA, isso porque ainda não conseguiu o seu Green Card (cartão que permite a residencia de imigrantes). Ela trabalha cuidando do Josh, o qual possui uma mãe artista plástica que demonstra interesse que fazer uma pintura de Kamara e para tal, ela deve pousar nua. Nesse jogo de sedução, Kamara fica na duvida, mas quando se decide acaba quebrando a cara por ver a mesma proposta sendo feita a outra jovem e professora de francês da criança que cuida. 
Esse é um conto que fala das sujeições que um imigrante deve se submeter para adquirir o Green Card, tendo até que se casar com alguém pelo qual não demonstra interesse. E mesmo tendo uma vida de conquistas no outro país, passar a ter que começar tudo do zero.

Jumping Monkey Hill: É sobre uma jovem escritora selecionada para um workshop de escritores africanos na Cidade do Cabo. Lá, Ujunwa encontra vários escritores e todos eles deverão produzir algum conta. O dela é sobre os abusos que as mulheres nigerianas sofrem, no entanto, ao mostra seu conto aos outros escritores, ela sofre gozações por parte do mentor e ao mesmo tempo assedio. Esse é um conto que retrata bem a violência de gênero e simbólica que as mulheres passam constantemente, principalmente quando não são levadas a sério.

No seu pescoço: É o conto que dá título ao livro. Akunna conseguiu seu visto para os EUA e constantemente enviava metade de sua renda para a família na Nigéria. Ao se envolver com um cliente do banca, ela passa a ganhar alguns luxos, presentes e visitas a lugares em que sofria violência. Até o dia em que ela recebe a notícia de que seu pai faleceu e decide voltar ao país natal. 
Uma história breve, mas que mostra como é ser uma imigrante numa terra estrangeira e os sentimentos, principalmente quando se sofre racismo e não é visto com bons olhos por estar numa relação inter-racial.

A embaixada americana: Diante da fila da embaixada americana, uma mulher tentará obter um visto. Ela sabe que a entrevista para conseguir um visto é difícil, mas já sofreu demais e acabou perdendo o filho que foi assassinado dois dias antes por homens que estavam a procura de seu esposo que foi retirado do país um dia antes. Temendo, principalmente porque seu esposo escreve críticas no jornal direcionadas ao atual governo, ela espera no caos da fila, onde pessoas são agredidas por policiais. No entanto, um sentimento faz com que ela largue tudo.
Chimamanda é dura ao falar sobre liberdade de imprensa e ao regime que a sociedade nigeriana passa diariamente envolto de violência e a autora traz o lado humano da estatística ao retratar um caso, dentre muitos, em sua históri... A mãe que perde esposo, filho e fica sem nenhum perceptiva de futuro.

O tremor: Após uma quada de um avião na Nigéria, Chinedu se junta a vizinha para rezar. Ela, Ukamaka está triste porque acredita que um dos passageiros é o seu ex-namorado. Assim, ambos vão trocar suas experiências de vida, cada qual falando de suas vivencias e um laço de amizade passa a ser formar.
Mais uma vez a autora traz pessoas de crenças diferentes agindo em prol de uma causa mutua.

Os Casamentos: Chinaza chega finalmente à América após seus tios conseguirem um casamento arranjado com um médico que já vive lá há dez anos. Na nova casa, a jovem passa a perceber que o seu marido não gosta de transparecer as origens culturais que tem, e oprime tudo isso tanto em si quanto passa a querer que ela se porte da mesma forma. O que era para ser um lar feliz, se torna momoto para  Chinaza, até que ela faz amizade com a vizinha.

Amanhã é tarde demais: Aqui a autora mais uma vez fala de diferença de gênero, ao trazer uma avó que trata diferente o neto da neta. O neto pode fazer as atividades mais "legais", como subir em árvores e a neta precisa aprender a ser uma boa esposa.

A história obstinadaO último conto mostra três gerações de nigerianos e o impacto da ocidentalização nessa família através das mudanças religiosas e culturais e traz o amor materno e incondicional de uma mãe para com seu filho.
Tentei resumir cada um dos contos apresentados pela autora em sua coletânea e trazer a diversidade de enredos contados por ela. Chimamanda Ngozi Adichie é um excelente escritora e conseguiu através dessas histórias breves desconstruir uma parte dos pré-conceitos que temos sobre o continente africano, e mais especificamente a Nigéria e a relação dos imigrantes com os Estados Unidos. O mais interessante, além do conteúdo, é que ela usa de diversas vozes narrativas, em sua maioria femininas, e também de técnicas experimentais e convencionais: escreve em primeira pessoa, segunda e também em terceira pessoa, mostrando um grande talento.

Cada história consegue nos tocar de uma forma diferente, de modo que é impossível não recomendar este livro para qualquer leitor.

Até logo,
Pedro Silva!

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