O que dizer do título Luzes de Emergência se Acenderão Automaticamente? Sensacional!

Luísa Geisler é uma das autoras contemporâneas mais jovens (26 anos) com uma produção literária bem cultuada e premiada. Logo de cara seus dois primeiros livros foram consagrados com o Prêmio Sesc de literatura em dois anos consecutivos: Contos de Mentirinha (2011) Quicá (2012). O primeiro sendo contos e o segundo um romance. 



Nesta obra, a autora volta a narrativa longa, mas escreve um romance epistolar, intercalado com pequenos capítulos descritivos que dão uma dimensão maior – além da do narrador das cartas, sobre o ambiente em que se passa a história e que muitas vezes nos abre os olhos sobre assuntos que não teriam o mesmo sentido, ou passariam despercebidos, justamente porque não são mencionados nas cartas. 

Henrique é um jovem estudante de administração que vive em Canos, Rio Grande do Sul. Essa não é a primeira graduação que ele ingressou,  mas sempre foi responsável por pagar as mensalidades da faculdade, trabalhando como balconista em um ponto de conveniência de um posto. Ele é um jovem comum, sem muitos anseios ou objetivos grandiosos, no entanto, o seu melhor amigo de infância (Gabriel), sofreu um acidente bobo que o deixou em coma. A partir de então, Henrique começou a escrever cartas destinadas ao Gabriel em um caderno: (I) porque ninguém iria ter como explicar tudo o que aconteceu enquanto ele estava apagado; (II) como uma forma de dialogar com o amigo e também contar o que anda acontecendo a sua volta. 
"Quando alguém tão próximo de ti vai embora do nada, tu percebe que tem fotos demais e lembranças de menos." (P. 120)
Porém, o que se percebe ao logo da obra é que essas cartas falam mais do Ike, apelido do rapaz, do que de qualquer outra coisa. Então, são os problemas, pensamentos e dia a dia do Ike que vão preencher as linhas do caderno aliadas à saudade que sente do amigo e a esperança de que um dia ele acorde. E ele sabe que isso talvez nunca volte a acontecer.


Luisa Geisler possui uma narrativa ágil e  jovem. Seu texto é formal e cheio de gírias tipicas do sul do pais. Esses elementos são aliados a uma história interessante, de tema triste, mas que na realidade não transmite aquela tristeza sensacionalista de livros famosos com a finalidade de trazer ao leitor o choro. É verdade que sentimos um vazio lendo essa obra e ao mesmo tempo uma auto-identificação  com os dilemas relacionados a futuro e relacionamentos.

Alguns temas são pouco explorados, ou tratados de formas sutis. A autora traz a questão da sexualidade mas não desenvolve com profundidade, principalmente a do Ike, já que em determinado momento ele tem uma experiência com Dante, mesmo ele se dizendo hétero. Fica no ar o questionamento, seria ele Gay, hétero ou foi uma amizade colorida? O que nos traz para essa efervescência jovem, onde as experiências são vividas como que para preencher uma sacola de vivencias. Não sabemos ao certo, porém, é perceptível que uma amizade singela e verdadeira surgiu após aquela experiencia, e isso é bem visível.

Foi um primeiro contato com a escrita da autora, o que serve de engate para querer ler mais dela. Luzes de Emergência se Acenderão Automaticamente captura bem os sentimentos daqueles que, às vezes, parecem estar vivendo em uma constante: universidade-trabalho-pagar contas-se relacionar com pessoas-universidade, e que torna o viver algo mecânico e com pouco animo, restando a nós uma luz para nos alertar de que algo não anda bem e que devemos mudarmos o foco desse ciclo eterno e enfadonho. A morte é algo doloroso, mas deixar ir é incomodo do que sustentar o que não criou raízes.

Vale muito a leitura!

Ficha técnica

   Título: Luzes de Emergência se Acenderão Automaticamente
   Autor: Luisa Geisler
   Editora:  Alfaguara
   Edição: 1
   ISBN: 9788579623165
   Gênero: Romance brasileiro
   Ano: 2014
   Página: 296
   Resenha de número: 345