Lido em: Abril de 2016
Título: Quarto
Autor: Emma Donoghue
Editora: Verus
Ano: 2016
Páginas: 350

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Resenha:

Jack é um menino de quatro anos, mas está prestes a completar mais uma primavera. Tudo que ele conhece, entretanto, é o quarto. Trata-se de um ambiente apertado, onde convive com sua mãe. Para ele, o quarto é tudo que existe. Aquelas coisas da tevê - praias, animais, pessoas - são apenas mentiras, criadas para sua diversão. Jack nasceu em cativeiro.

Sua mãe, que fora sequestrada há sete anos, quando estava indo à faculdade, é diariamente abusada sexualmente pelo Velho Nick, seu captor, exatamente às 21:00h. Enquanto os estupros repetidos acontecem, Jack conta seus dentes, em silêncio, trancado no guarda-roupa. O “lá fora” é abstrato e, em sua mente, do outro lado da claraboia, encontra-se o espaço sideral. Jack, entretanto, é uma criança feliz.

"O lá fora tem tudo. Agora, toda vez que eu penso numa coisa, como esquis ou fogos de artifício ou ilhas ou elevadores ou ioiôs, tenho que lembrar que eles são reais, acontecem todos juntos de verdade no lá fora. Isso deixa minha cabeça cansada. E as pessoas também, bombeiros, professores, ladrões, bebês, santos, jogadores de futebol é gente de todo tipo, eles todos estão mesmo no Lá Fora. Mas eu não estou lá, eu e a mãe, nós somos os únicos que não estão lá. Será que ainda somos reais?"


Narrado em primeiro pessoa pelo nosso pequeno personagem principal, a obra apresenta um grau sem precedentes de realismo. Os fatos, embora narrados por uma criança, apresentam-se cheios de pequenos detalhes que, em conjunto, possibilitam a formação de cenas nítidas em nossa mente. Como todos devem imaginar (até mesmo os que não assistiram ao trailer do filme homônimo), ambos conseguem escapar do cativeiro através de um plano mirabolante. É interessante acompanhar o desenvolvimento de mãe e filho no que diz respeito às relações sociais, tendo em vista que ambos conviveram, em tese, apenas um com o outro durante um longo período de tempo.


Emma Donoghue consegue, de forma magnífica e digna de aplausos, discutir e colocar em foco temas críticos que, de fato, necessitam de visibilidade, como sequestro e cárcere privado. A autora nos mostra as feridas psicológicas que são abertas em quem passa por tais circunstâncias, levando-nos a refletir acerca de tudo que nos rodeia.

Embora a obra possua em seu centro um tema polêmico, a narração feita por Jack nos faz, muitas vezes, cair na gargalhada. É constante a presença de erros de conjugação verbal, digna de uma criança de cinco anos. Além disso, as situações pelas quais Jack passa acabam dando certa leveza ao enredo. Oscilando entre passagens singelas e momentos de causar arrepios em qualquer um, Quarto nos traz uma mensagem não apenas de sobrevivência, mas de adaptação.

"No Quarto, eu e a Mãe tínhamos tempo pra tudo. Acho que o tempo é espalhado muito fino em cima do mundo todo, feito manteiga, nas ruas e nas casas e nas pracinhas e nas lojas, por isso só tem um tiquinho de tempo espalhado em cada lugar, e aí todo mundo tem que correr pro pedaço seguinte."

Munido de personagens fortes, cenas bem descritas e um tema atual, chocante e polêmico, não haveria como o resultado ser diferente: "Quarto" foi, para mim, uma das melhores leituras deste ano. Palavras não conseguem descrever os sentimentos que vivi durante a leitura do meu exemplar. Por este motivo, convido você, leitor, a viajar pelas teorias de Jack e conhecer 'o quarto' e o 'lá fora'. Convido você a conhecer a estranha mente humana.

Confira o trailer da adaptação cinematográfica, que concorreu ao Oscar 2015 na categoria de melhor atriz:


Até logo,
Sérgio H.